sábado, 18 de abril de 2020

Dos Dias de Hoje

Assim vão os dias.

O sábado soa a quinta feira, a segunda-feira parece uma sexta... já a terça cheira a sábado.
Só o domingo continua com o gosto amargo dos domingos comuns.

Os dias parecem iguais e na realidade quase que o são.
Podemos reinventar-nos, podemos ler umas páginas de um livro, ver um episódio de uma série.

Mas a realidade é que esta não é a nossa vida comum.

Apesar do tempo "que me estão dar" para viver com a minha filha a tempo inteiro, a oportunidade de vê la crescer, esta não é a minha realidade.
Eu tenho um emprego, uma profissão, uma rotina diária, colegas de trabalho, faço chamadas, respondo a e mails diariamente.
E agora?
Agora parece que não sou eu e ao mesmo tempo sinto-me agradecida por estes pedaços de tempo em que a vejo crescer, fazemos desenhos, jogamos jogos, regamos a relva, lemos uma história ou fazemos ginástica.
Coisas simples. E que fazem dela uma criança feliz.

Acho que quando isto terminar, vamos poder olhar para tudo e repensar a nossa forma de estar no mundo, diariamente.
A correria dos dias, fará sentido?
Podemos ter uma profissão que nos dê tempo de qualidade com os nossos e de qualidade para nós?
Haverá tempo para ler ou ver um filme?
Ver carros passar ou apanhar pedrinhas?
Ou mesmo tempo só para ouvir o nosso silêncio?

O futuro é incerto...e enquanto ele não chega, vamos viver estes dias com a máxima alegria que consigamos. Em casa.


quarta-feira, 15 de abril de 2020

Dia Trinta e Quatro

Hoje, ao 34º dia desta quarentena, para já sem doentes na família ou amigos (que se saiba), dou por mim a pensar que tenho em mim várias profissões:

- manicura;
- pedicure;
- cabeleireira;
- esteticista;
- cozinheira;
- pasteleira;
- fotografa;
- padeira;
- senhora das limpezas;
- electricista;
- educadora de infância;
- auxiliar de educação;
- palhaça;
- dançarina;
- cantora;
- instrutora de ginástica;
- contadora de histórias;
- pintora e artista plástica;
- analista política;
- escritora;
- economista;
- crítica de cinema;
- crítica literária;
- especialista do sono infantil;
- agricultora;
- enfermeira.

A saber:
- fotografar recém nascidos vou aprender;
- jardinagem estou a aprender;
- costura estou a ponderar aprender;

O mais importante de tudo: mãe e mulher a tempo inteiro!

E assim vai o nosso pequeno mundo, ao dia 34 desta quarentena preventiva.
Fiquemos em casa.
Afinal de contas, não custa assim tanto e ajuda-nos a percebermos nos um pouco melhor a nós mesmos...


segunda-feira, 6 de abril de 2020

23 meses de e com a Cata


Estou há muito tempo sem escrever aqui.
Aqui no meu espaço, que criei para libertar me das palavras.

E, entretanto neste meu caminho da maternidade, já aconteceram tantas coisas, boas e outras menos boas, que para escrever sobre isto tudo em tão poucas linhas, não teria tempo suficiente - escrevo enquanto ela dorme uma sesta agora.

Voltei ao trabalho no final de 2018 e as rotinas desde que ela fez um ano e o horário passou a ser completo não facilitam no tempo disponível para outras coisas ao final do dia senão dar-lhe toda a atenção que ela tem direito.

No entanto, não posso deixar passar em branco estes 23 meses, as aprendizagens, a evolução nas palavras, nas brincadeiras. 
Já anda. Já corre. Já cai e se levanta. 
Já sacode as mãos e diz que quer fazer óó. 
Diz que tem xixi ou mesmo cocó.

Adora brincar na rua, com as molas ou o regador, que diz ser dela.
Gosta de ajudar a avó a regar e de levar o Thor a passear.

Percebe tudo o que lhe dizemos. 
Faz (na maioria das vezes) como lhe pedimos para fazer.
E expressa se já tão bem, que já faz perguntas. 

Adora desenhar carros ou um simples "cocoiol" (caracol).

É incrível vê la crescer. 
Saudável e Feliz.

Gosta do tractor do pai e de agarrar na terra. 
De fazer Legos e desmontar tudo de seguida. 

Adora que lhe leia uma história, principalmente a história da coruja "Feliz". 
Adora ver 1467 vezes por dia o babyshark ou dançar as canções do "Panda e os Caricas".

Dá saltos, parece um gafanhoto, e tem uma amiga no nosso quintal, a Lagartixa (que para ela é a Cacaxia), que ou está a passear ou a fazer óó. Raramente aparece.

Gosta de comer, odeia sopa, e está sempre a pedir "rucas" (iogurtes). 
Não é muito gulosa, não gosta de bolos, mas adora um bom gelado de morango fresquinho, que partilha colheradas com o pai.

E assim vão os dias... nesta quarentena, que de tudo o que tem de mau lá fora, aqui dentro da nossa casa posso desfrutar do crescimento dela, aprender e ensinar o que sei, contar histórias e ouvir canções bonitas, aprender com ela a simplicidade da vida.

O Mundo aos olhos de uma criança tem uma beleza única.

E aqui, agora, todos os dias passaram a ser como se fossem sábados...ou domingos!



sábado, 21 de março de 2020

Dia Mundial da Poesia 2020


Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

(Poemas Inconjuntos, heterónimo de Fernando Pessoa)
Alberto Caeiro

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Não penses...


“Não penses. Que raio de mania essa de estares sempre a querer pensar. Pensar é trocar uma flor por um silogismo, um vivo por um morto. Pensar é não ver. Olha apenas, vê. Está um dia enorme de sol. Talvez que de noite, acabou-se, como diz o filósofo da ave de Minerva. Mas não agora. Há alegria bastante para se não pensar, que é coisa sempre triste. Olha, escuta. Nas passagens de nível, havia um aviso de «pare, escute, olhe» com vistas ao atropelo dos comboios. É o aviso que devia haver nestes dias magníficos de sol. Olha a luz. Escuta a alegria dos pássaros. Não penses, que é sacrilégio.”

Virgílio Ferreira