sábado, 30 de setembro de 2017

Escuta o Meu Silêncio

Queria tocar-te
Sentir a tua pele macia…
Mas não posso,
Não te chego, não te alcanço.
Ouço ao longe o som dos tambores,
O som das sirenes, o som dos gatos que miam,
O som das ondas que esvaziam o oceano.
Ouço o som dos teus gritos,
O silêncio do teu sorriso.
Ouço gritares por mim de noite,
Quero chegar-te e não consigo!

Um abraço perdido,
Um olhar vazio,
Um aconchego desse lado,
Neste lado tão meu…
Diz que me queres,
Eu vou a correr, mas sem tempo a perder.
Que vou fazer?
As lágrimas escorrer,
O cansaço toma conta de mim.
Já não sei escrever, já não sei dizer,
Vou tentar não morrer.

Amar é não perdoar.
Amar é não sentir qualquer dor.
Amar é tão e só estar só,
Que de tão só é querer só ser!


Meu poema, presente no livro de Antologia de Poesia Contemporânea "Entre o Sono e o Sonho", Vol. VIII, da Chiado Editora - lançamento hoje em Lisboa. 

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Fez o que tinha a fazer...

Décimo (e último) Desafio de Escrita Criativa

Continue, acrescentando-lhe não mais de 300 palavras, o seguinte texto:

Fez o que tinha a fazer...


E este é o meu texto:.

Fez o que tinha a fazer naquela noite. Não podia esperar nem mais um segundo para se ver livre do que a atormentava há anos. Ainda hesitou, mas ele nem teve tempo de dizer olá quando pôs a chave à porta.
Um tiro de caçadeira atravessou-o de um lado ao outro. BOOMMM!!
Um estrondo enorme foi ouvido prédio acima. Lurdes respirou fundo. Sentou-se à porta de casa, junto ao corpo inanimado do marido. Tinha a certeza que em breve alguém aparecia para saber o que se passava naquele andar da Rua da Esperança.
Que irónico! Lurdes já pouca esperança tinha naquela relação de mais de trinta anos. Vivia em permanente sufoco, tremia sempre que Eduardo metia a chave à porta depois de mais um dia de trabalho, depois de mais um final de dia no café, depois de mais um dia a chegar bêbedo a casa e depois de mais uma e outra vez de lhe dar uma e outra sova, até a deixar por vezes inconsciente. Batia-lhe nem se sabe porquê.
Os filhos, já criados, assistiram a muitos episódios destes enquanto pequenos. Contudo, nunca a esta dimensão a que chegou nas últimas semanas.
Lurdes permanecia sentada. Olhar vazio, fixo na fotografia de casamento de ambos, onde a felicidade aparentemente reinava. Casou grávida, jovem, sem ter vivido o que era suposto no seu tempo. Por vergonha, o pai obrigara-a a casar com o pai do filho, com quem não tinha muita afinidade, mas não teve escolha. Eram outros tempos e valores mais altos se levantavam.

Nunca foi feliz. Nunca se sentiu verdadeiramente feliz. Só os filhos lhe davam o sorriso que tudo o resto lhe faltou sempre. Mas agora, sentiu um alívio inimaginável, só quebrado pelo som da sirene da polícia. Mas o sofrimento terminou. E agora é feliz.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A Doença do Século

Nono Desafio de Escrita Criativa

Escreva um texto, com não mais de 300 palavras, que comece e termine com a letra "a". 

Este é o meu texto:

Anda triste, semblante baixo.
De repente o mundo ruiu sem que pudesse sequer escolher o que quer que fosse para a sua vida.
Apenas com oito anos, a mãe acabara de sucumbir à puta da doença do século. O cancro. Primeiro na mama Agora em todo o lado. Foram apenas três semanas.
Os pais já estavam separados nem um ano tinha completado ainda.
E ele cá ficou agora, desamparado. De mãe, entenda-se. Os avós, já com alguma idade, não podem ficar com ele, embora queiram.
Ficará o pai.
Felizmente tem agora também estabilidade, emocional e financeira, para que possa ser criado num lar, com amor e educação, onde já uma pequena irmã o espera de braços abertos, gritando ao mundo “Eu tenho um mano!”. E que orgulho tem ela neste irmão.
Mas esta criança sofre. Em silêncio.
Lembremo-nos: de repente tudo o que sempre conheceu desde pequeno deixou de existir. Deixou de ter os amigos da escola onde sempre andou, deixou de estar todos os dias com os avós maternos, deixou de brincar na rua onde sempre brincou com os vizinhos, amigos.
No entanto, o outro lado desta moeda trouxe-lhe uma família renovada. Avôs, avós, tias, tios, primos, madrasta, padrinhos e uma irmã. E os amigos, a família que se escolhe.
Tudo agora será para ele um recomeço.
Apesar de oito anos, tem maturidade de seis. Voltou a repetir a segunda classe, entrou para os escuteiros, fez novos amigos e aos poucos se vai ambientando ao novo lar a tempo inteiro, aprendendo as regras da casa, as rotinas diárias, com novas responsabilidades.

Mas de noite, no silêncio do seu quarto e antes de adormecer, suspira por ela: minha mamã…

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Está lá? Quem fala?

Oitavo Desafio de Escrita Criativa

Escreva, gastando não mais de 300 palavras, um texto que consista APENAS E SÓ num diálogo entre duas pessoas. 

Este é o meu texto:

- Olá Rita, estás boa?
- Oi Xana, tudo bem e contigo? Os miúdos? O Ricardo? Está tudo a andar?
- Os miúdos estão bem, foram a Fátima pela escola. Sabes como é, colégio católico este ano organizaram uma excursão para os alunos todos irem assistir à procissão das velas. Deve ser muito emocionante.
- Sim, para quem é católico deve ser bem mais do que isso. Engraçado as escolas organizarem estas visitas.
- Não é só visitar o Santuário, sabes. Foram fazer também dois dias de caminhada a pé, a chegada ao recinto será feita por todos a pé.
- Este ano também gostava de ter ido a pé a Fátima, mas como vinha o Papá para o aniversários dos cem anos das aparições calculei que fosse muita confusão, muita gente, sabes?! E então talvez vá no 13 de Outubro…ainda não sei. Tenho que me preparar fisicamente para essa jornada.
- Ah pois, já no ano passado fizeste o Caminho de Santiago e treinaram imenso, não foi?
- Sim, treinei imenso mas não foi o suficiente. Sofri muito. Seis dias a caminhar, 150 km a pé de mochila às costas, aleijei-me numa coxa, sabes lá! Por mais que treinemos e caminhemos antes de ir, nunca é o suficiente.
- Nem imagino!
- Mas a sensação de chegar é única, sabes?! Só vivendo estas experiências é que podemos dar valor a elas…
- Tens razão.
- Mas olha, não te liguei por causa disso… queres ir jantar logo? Estou sozinha, o Daniel foi ver a bola e a seguir deve ir para o Marquês…que tal um petisco, hein?
- OK! Combinado!
- Beijinhos, até logo.

- Beijinhos.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Em Setembro...

- Termina o Verão, começa uma nova estação.
- Começam as aulas;
- No trabalho há sempre novidades;
- Vêm as manhãs frias, as tardes amenas e os finais de dia mais escuros;
- O pijama ocupa o lugar dos calções curtos;
- As meias sabem bem para dormir;
- O edredon está quase a sair do armário;
- E faz hoje 16 anos que falámos pela última vez as duas...

Em Setembro recordo os nossos risos, as nossas conversas, os nossos passeios, as nossas saídas nocturnas, as nossa adolescência, a nossa felicidade...
Em Setembro recordo-te mais do que nunca!!

Em Setembro partiste, é verdade, e a vida não voltou mais a ser a mesma. Digam o que disserem, mas a tua falta faz se ainda sentir. E muito. 

Por isso não gosto de te lembrar no dia 20, aquele dia, mas sim no dia 19, no dia em que te ouvi falar pela última vez... E tínhamos tantos planos para nós, para ti, para mim, para todas!

Fazes cá tanta falta... Um dia já sei que nos reuniremos todas, a uma mesa redonda, e falaremos das aventuras que vivemos e daquelas que apenas planeamos. Até breve minha amiga... 


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Uma Revelação Surpreendente

Sétimo Desafio de Escrita Criativa 

Escreva um texto, com não mais de 300 palavras, em que haja, logo no começo, uma revelação surpreendente.
 Este é o meu texto:


“O Mário morreu.”
A notícia chegou a toda a aldeia da pior maneira: na capa do jornal regional.
Por sorte o Ti Manel ainda assina o jornal semanal e na Casa do Povo lá o vai folheando nos dias mais parados, para ver as novidades do concelho. E que novidade esta, hein?! Ninguém esperava.
O Mário tinha ali estado na semana passada a beber o seu branquinho fresco e cheio de vigor, imagem que o caracterizava. Aos 93 anos ainda conduzia o seu velhinho carocha com uma habilidade impressionante. Sim, porque não é fácil conduzir um carro tão antigo sem direção assistida pelas estradas sinuosas da beira.
            Mário era mesmo um excelente homem. Toda a gente gostava dele nas redondezas. Ele jogava às cartas, dominó, à malha e ainda dava uma perninha nos matraquilhos se lhe pedissem muito. Que bom homem. Vai deixar saudades.
            Estava anunciado o dia do velório e do funeral para o dia seguinte. Todas as aldeias estavam a planear uma homenagem sentida ao homem da terra. Era uma semana triste aquela no concelho… seria recordado para sempre.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O Amor é...

Sexto Desafio de Escrita Criativa 

"O amor é uma espécie de preconceito", de Charles Bukowski

Explore, de forma criativa e num texto com não mais de 300 palavras, o que esta frase transmite.

Este é o meu texto: 


            O amor… Esse sentimento tão simples e complicado pelo ser humano.
Afinal, o que é o amor? No seu sentido único da palavra, digamos.
Será um conjunto de sensações distintas, que tanto fazem rir como chorar? Não, isto é uma peça de teatro!
Será apenas e só o conjunto de duas pessoas que se gostam e se misturam sexualmente? Não! Isto é só a fase da paixão!
Será então viver a dois, desfrutar dos bons momentos, dos maus, dos almoços em família ou aquele serão com os amigos chatos dele? Sim, está mais perto esta descrição!
Será então o amor uma espécie de preconceito assumido, de quem ama e tem vergonha de o dizer ou de quem é amado e espalha ao mundo essa realidade?
Ou será o amor o culminar dos nossos sentimentos mais nobres? Possivelmente.
Mas será nobre bater numa mulher, por amor?
Será nobre oprimir uma mulher, por amor?
Será ainda mais nobre matar uma mulher, por amor?
Não! Nenhuma destas afirmações terá com toda a certeza alguma nobreza implícita.  
O amor é nobre sim, com os seus defeitos e preconceitos inerentes a cada relação, mas tem que ser uma partilha constante de momentos, de ideias, de carinhos, de vida, de estar.
Amai-vos uns aos outros, já dizia o profeta. E ele tem razão, que a vida sem amor é um triste e preconceituoso estar de alma, mas de alma vazia, sem substâncias.

domingo, 3 de setembro de 2017

Poema de Amor

Quinto Desafio de Escrita Criativa 

Escreva um texto, com não mais de 300 palavras, em que use pelo menos duas vezes a palavra "poema".

Este é o meu texto: 



Cristina todos os dias via a mochila do filho mais pequeno, Miguel, sempre que ele chegava da escola.
Miguel era um menino doce e aos 10 anos vivia a sua primeira história de amor. A escolhida era a sua colega de carteira. Acho que todos nós, pelo menos uma vez na vida, nos apaixonamos pelo colega de carteira. Faz parte do nosso crescimento e Cristina sabia que a infância tinha destes sentimentos maravilhosos e simples, que é o amor nesta idade.
Qual não foi o espanto quando abriu o caderno de Estudo do Meio, e se deparou com este lindo poema de amor:
“Minha querida Liliana,
Que estás sentada ao pé de mim.
Na aula de Matemática.
Tudo fica mais simples.
Aprender a somar
Ou aprender a multiplicar.
Se não fosses tu,
Acho que este ano ia chumbar!”

A simplicidade das palavras de Miguel encheram Cristina de orgulho. Não que se deva dar grande importância ao amor nesta idade, mas o facto do filho ter escrito este poema dedicado à amiga e sem erros, deixou-a muito feliz.
            Quando Miguel saiu do banho, os olhos da mãe brilhavam ao olhar para ele. Perguntou como tinha corrido o dia de escola, o que tinha aprendido naquele dia e sentaram-se a jantar, junto com o pai José. Era uma família modesta, de gostos simples, mas de uma ternura e amor incríveis entre todos. 
            Cristina sabia que o filho era feliz e que a amiga especial o ajudava em muito na sua prestação escolar e isso fazia toda a diferença no ambiente familiar harmonioso em que viviam.