segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Era Uma Vez Uma Mulher

Quarto Desafio de Escrita Criativa

"Havia uma mulher que..."
Continue, acrescentando não menos de 300 palavras, este texto.

Este é o meu texto:


Havia uma mulher que era tão feia, tão feia, mas tão feia, que vivia isolada do mundo desde sempre. Quando nasceu, era a criança mais desejada da sua aldeia. No entanto, assim que a mãe a viu, chorou sete dias e sete noites, horrorizada por esta bebé ser tão feia.
O seu pai, independentemente da sua pouca beleza, amava-a como nunca amou nada na vida. Também chorou, coitado, sozinho à noite, na sua biblioteca. Chorava, não porque sabia que a sua querida menina era feia, mas porque sabia que ela ia sofrer a vida inteira por ser assim. Diferente.
Cortava-lhe o coração ver todos à sua volta gozarem com a menina, que mal tinha horas e já era desprezada por toda a comunidade.
A mãe tentou matar-se várias vezes. Mas ironia do destino, nunca conseguiu. Talvez fosse o seu karma ter que olhar para aquela menina o resto da sua vida. Por isso, fechou-se a sete chaves noutra casa, isolada de tudo e todos.
O pai, por seu lado, agarrou-se à vida e à sua fábrica de ferro, dedicou-se ao seu trabalho afincadamente. Quando ela era pequena só ele a visitava. Lia-lhe histórias todas as noites antes de ela adormecer, levava-lhe o pequeno-almoço todas as manhãs antes de sair para trabalhar, vinha almoçar com a filha, voltava para a fábrica e fazia questão de jantar com ela.
Quando ela fez seis anos contratou uma professora para dar aulas à sua menina, que cresceu encarcerada na torre mais alta da sua casa. Quase ninguém tinha autorização para a visitar. A mãe mão mais a quis ver.
Para celebrar os seus dezoito anos, o pai organizou uma festa para toda a gente da aldeia e arredores. Queria apresentar a filha ao mundo. Era um pai orgulhoso dela e assim que o baile começou, Ana desceu a escadaria, coberta por um véu cor-de-rosa, num vestido deslumbrante, feito à sua medida. As luzes estavam quase apagadas, todos pensaram que o pai não queria que se assustassem ao vê-la. Toda a gente sabia que ela era feia, mas há dezoito anos que ninguém a via.
Quando a música começou a tocar, Ana retirou o véu e o som do espanto percorreu a sala. Ana tornou-se numa mulher única, de uma beleza esplendorosa, um corpo de sonho e uma inteligência fora de série. Todos os solteiros queriam dançar com ela; os homens casados também mas não podiam.
No final da noite, a mãe apareceu sorrateiramente para ver como estava a correr o baile e logo que viu a filha nem quis acreditar em como ela se tinha tornado numa mulher bonita, com um rosto cheio de luz em contraste com a torre escura onde sempre viveu.
Ana viu-a, chamou-a para si. Dançaram as duas. A mãe chorou de vergonha e Ana perdoo-a. O pai voltou a sorrir, a mãe viveu envergonhada o resto da vida.
E Ana? Ana voltou para a sua torre, sua fortaleza, onde sempre quis viver, embora a partir deste dia não mais ficou fechada, assumindo os negócios do pai, casou com o homem mais bondoso da aldeia e fez fortuna. Foi mãe de um rapaz e deu-lhe o nome do seu pai: Francisco.

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